THE TELL

A SEC cancelou a votação. Dias depois, publicou o manual de regras do mesmo jeito

Em 18 de agosto, a Securities and Exchange Commission divulgou a "Regulation Crypto" — sua primeira tentativa de escrever regras para todo o mercado cripto de uma vez. A reunião que deveria aprovar o texto havia sido cancelada dias antes.

Durante quase toda a última década, a política cripto dos Estados Unidos foi escrita em tribunal. A SEC decidia o que era um valor mobiliário processando alguém e vendo no que dava. As empresas aprendiam as regras perdendo, fazendo acordo ou esperando anos por uma decisão judicial.

A "Regulation Crypto" é a primeira tentativa séria de fazer o caminho inverso: uma proposta escrita, aberta a comentários, válida para todos — e não só para quem a agência escolheu naquele trimestre. O estranho é o momento. Segundo a CoinDesk, a comissão havia marcado uma reunião para votar a proposta e depois cancelou. O documento saiu de qualquer forma.

O que significa

Votação cancelada é sinal, e reguladores sabem disso. Comissões tiram uma reunião da pauta quando o texto não está pronto, quando os votos não estão fechados ou quando alguém quer mais tempo. Não sabemos qual desses casos é este — a SEC não explicou, e não vamos inventar um motivo. Mas agência confortável com a própria proposta costuma realizar a reunião.

Então a proposta já nasce com uma interrogação em cima.
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O que muda na prática é o método. Punição é retroativa por natureza: você descobre que quebrou a regra depois de quebrá-la. Uma regra proposta é pública, tem data e pode ser contestada antes de valer para alguém. Advogados passam a discutir definições em cartas de comentário, e não em depoimentos. É um drama menor e uma mudança bem maior.

Uma ressalva. Proposta não é lei. Vai para consulta pública, é reescrita, volta para votação final e depois — nessa área, sem falhar — é processada. A distância entre o que foi publicado em 18 de agosto e o que as empresas de fato terão de cumprir se mede em anos, não em semanas. Não lemos o texto integral e estamos nos apoiando no relato da CoinDesk sobre a divulgação.

A quem isso afeta

Corretoras, custodiantes, emissores de tokens e brokers que operam nos Estados Unidos — os que vinham montando programas de compliance com base em chute e em discursos antigos. E também quem está construindo um ETF, um trilho de stablecoin ou um ambiente de negociação de ativos tokenizados e espera há anos por uma definição do que exatamente é.

O que vem a seguir

Três coisas para acompanhar: o prazo da consulta pública, se algum dos comissários registra uma discordância pública explicando a reunião cancelada, e como a proposta trata a fronteira entre token e valor mobiliário. É nessa definição que os processos vão começar.

Um detalhe para guardar

A regra vai ser discutida por anos. A reunião cancelada estará esquecida na sexta. Só que ela é o fato mais informativo: um regulador que publica uma proposta histórica sem a votação que ele mesmo marcou está dizendo algo sobre a sala de onde o texto saiu. Observe quem explica — e quem fica calado.

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